Prefácio
Por Juarez Sofiste,
Professor de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora - MG
Juarez Sofiste e Joarez Sofiste, além dos nomes quases iguais, são primos.
Primos que vieram a ser conhecer recentemente.
Juarez Sofiste é filósofo e professor de filosofia e mora em Minas Gerais.
Joarez Sofiste é mecânico de automóvel e agora autor de livro sobre filosofia. Mora em Curitiba.
Quis o destino que este encontro acontecesse sob os auspícios da arte de perguntar, a filosofia.
Leia o texto de Juarez Sofiste preparado para o prefácio do livro " A Problemática do Homem- a Chave Para o Autoconhecimento".
Um brinde ao divino que há em nós.
Filosofar é preciso ?
O que é o ser humano? É a pergunta fundamental do livro de Joarez Sofiste. Trata-se de um texto tecido a partir de perguntas, inquietações e insatisfações. Mas para que perguntar? A vida não seria mais fácil, mais simples e mais feliz sem perguntas e questionamentos? Mas não é próprio do humano perguntar? É possível viver sem perguntas?
Afinal, filosofar é preciso?
Se tomarmos como referência o mito, que é do ponto de vista histórico, o primeiro logos (palavra / razão) sobre as coisas, veremos que as narrativas sobre as origens sempre falam de um tempo em que o humano vivia no paraíso, onde tudo era perfeito sem sofrimentos, invejas, dores, perguntas e insatisfações. Os mitos das origens se estruturam em linhas gerais, em três momentos:
- Descrevem um tempo primordial onde tudo era perfeito.
- Relatam como foi quebrada essa perfeição, em geral por alguma desobediência relacionada à curiosidade.
- Falam como as coisas vieram a ser depois da perda do paraíso.
A narrativa mítica busca explicar (não no sentido filosófico ou científico) como tudo começou, qual o sentido e razão de todas as coisas. São, no entanto, explicações fundamentadas nos desejos, esperanças e sentimentos humanos, que se considerados significativos e verdadeiros, podemos afirmar que os mitos revelam profundas verdades sobre o humano e é, assim, a estrutura fundamental do ser humano no mundo.
Com o advento do pensamento racional no sentido estrito (filosofia / ciência) ou seja, busca de explicação das coisas pelas suas causas, o mito foi entendido apenas como uma ficção. Pensou-se que o mito, por se tratar de um saber ligado às paixões, desejos e esperanças, estava condenado à desaparição, ou como diz Mirecéia Eliade no livro Mito e Realidade, iria tornar-se uma fabulação sem sentido, uma vez que a ciência resolveria todos os problemas humanos e, portanto, o ser humano iria implantar, aqui na terra, o paraíso sobre o qual sempre sonhara.
A ciência, com certeza, resolveu muitos dos problemas humanos, no entanto, os de ordem existencial continuam a nos atordoar. É bem verdade, que a ciência lida muito bem com o fazer, isto porque desde o início sua aliança com a técnica foi muito feliz. Talvez por essa razão, no profundo de nossa angústia existencial, a ciência não tenha nada a nos dizer.
As perguntas que se encontram na origem da filosofia, tais como: O quê? Para que? Por quê? Para muitos só atrapalham, pois já acham a vida muito complicada e não entendem para que ficar questionando e o negócio é “deixar rolar” , como dizem popularmente, parecendo que uma vida feliz é a construída sem questionamentos. Nada de perguntas, nada de interrogações, nada de insatisfação, nada de pedir explicação, nada de discordar, nada de desejar um pouco mais, aceitando as coisas tal como se apresentam, porque foi assim que Deus nos fez.
Trabalharíamos com a idéia de que a vida seria realmente mais simples se tudo estivesse estabelecido, se ética estivesse inscrita em nossa natureza, se não tivéssemos que tomar nenhuma decisão. No entanto, perguntamos: uma vida assim seria realmente uma vida humana?
Segundo Aristóteles não, porque a Razão é o que de melhor existe em nós, e ainda mais, é o que divino existe em nós. Portanto, negar que somos seres livres e racionais é negar o que de mais sublime e elevado existe no ser humano. È uma espécie de recusa à própria condição humana.
No livro X, do Ética a Nicômacos, Aristóteles afirma que a Felicidade é o objetivo final da vida humana. A felicidade é uma atividade desejável em si, visto que ela é auto-suficiente, ou seja, é uma atividade em que nada se busca além do exercício da própria atividade. A vida feliz é conforme a virtude e é razoável que ela seja uma atividade conforme a mais alta de todas as formas de virtude, e esta será a virtude da melhor parte de cada um de nós.
Afirma o filósofo que se esta parte melhor é o intelecto (razão) ou qualquer outra parte considerada naturalmente dominante em nós e que nos dirige e tem o conhecimento das coisas nobilitantes e divinas, se ela mesma é divina ou somente a parte mais divina existente em nós, então sua atividade conforme a espécie de virtude que lhe é pertinente será a felicidade perfeita.
Levar uma vida pautada no exercício da liberdade e da racionalidade, segundo o pensador, não é uma tarefa simples e fácil. O que não significa dizer que é impossível. A idéia é que quanto mais nos aproximarmos desse ideal, mais humanos, responsáveis, livres e felizes seremos.
Assim, para Aristóteles, filosofar não é só preciso, é necessário para que nos tornemos seres humanos mais plenos e felizes. E todo o livro Ética a Nicômacos, que é um tratado que investiga a natureza da felicidade, é resumido nas seguintes palavras:
Mas uma vida como esta seria demasiadamente elevada para o homem, pois não seria como homem que ele viveria assim, mas como se algo divino estivesse presente nele; e esta atividade é superior às outras formas de virtude na mesma proporção em que este “algo divino” é superior à nossa natureza heterogênea. Então, se o intelecto é divino em comparação com as outras partes do homem, a vida conforme o intelecto é divina em comparação com a vida puramente humana. Mas não devemos seguir aquelas pessoas que nos instam a , sendo humanos, pensar em coisas humanas, e sendo mortais, a pensar no que é mortal; ao contrário, devemos tanto quanto possível agir como se fôssemos imortais, e esforçar-nos ao máximo para viver de acordo com o que há de melhor em nós, pois embora esta nossa parte melhor seja pequena em tamanho, em poder e importância ela ultrapassa todo o resto. E pode realmente parecer que esta parte é a verdadeira natureza de cada criatura humana,, já que ela é a sua parte dominante e melhor. Seria estranho, com efeito, se o homem devesse dar preferência não a viver a sua própria vida, mas a vida de outro ser qualquer. E o que dissemos antes se aplica agora: aquilo que é peculiar a cada criatura lhe é naturalmente melhor e mais agradável; para o homem, a vida conforme ao intelecto é melhor e mais agradável, já que é o intelecto, mais que qualquer parte do homem, é o homem. Esta vida, portanto, é também a mais feliz. (Ética a Nicômacos, livro X).
É nesta linha de reflexão que vão as interrogações de nosso pensador Joarez Sofiste, ou seja, a busca das razões de nossa vida, de nossas ações, valores e opções.
É um livro que nos convida a filosofar.
Juarez Gomes Sofiste
(Mestre em Filosofia, professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG)